Desde a adolescência sonhava em ser MADAME. O que é ser madame? Vou explicar:
Para mim, nos meus devaneios e desejos, madame é aquela mulher que não precisa trabalhar, pois tem um provedor. Faz caminhada ou ginástica no meio da manhã ou no meio da tarde. Faz aulas de porcelana. Leva e busca filho o dia inteiro. Não tem dia ou hora para frequentar o Mercado Central ou o Shopping ou a Academia ou... Madame para mim nunca estará na janela da cortina fechada!
Quando me casei, tive a sorte (ou o olhar) de escolher um homem com muito potencial para me fazer Madame. Ele era muito culto, inteligentíssimo, dedicado, estudioso, esforçado, ótimo pai e um gentleman
(google: Homem com modos, não especificamente rico, e sim com classe de berço, um homem não se torna um gentleman, ele nasce um ). Um aparte interessante. Característica ou dom herdada pelo filho mais velho.
E quando eu percebi que teria a chance de através dele, me tornar "a Madame", apostei todas as minhas fichas e me dediquei muito para que este dia chegasse...
Durante anos fui a mulher que o ajudou a estudar: 2 graduações e 1 mestrado. Ficava com nosso filho mais velho, todas as noites para ele estudar e trabalhar. Levava e buscava o filho mais velho de ônibus, pois ele precisava do carro para trabalhar... e estudar... e me fazer madame. Anos na janela da cortina fechada, olhando pela fresta e pensando que o que estava fazendo estava valendo a pena... pois eu estava a cada dia mais próxima de lá... "do Madamismo"!!!
E quando o jardim estava todo arado, plantado, irrigado, florescendo e pronto para dar frutos... veio a dona morte, com seu facão. Pegou minha cesta de ovos, sem dó nem piedade, jogou no chão... Todos se quebraram e... eu fui para o brejo. Brejo número 2. A segunda mais dolorosa experiência da minha vida.
E do brejo eu só via uma coisa. A vaquinha, lá na janela da cortina fechada, a única capaz de não me deixar voltar para traz... Voltar para Araxá, para ser sei lá o que ou sei lá quem.
Um dia, durante a licença maternidade do segundo filho, sentada no banco da Praça Governador Valadares, em Araxá, peguei um pequeno pedaço de papel e fiz a conta de todas as 2 receitas e de todas as muitas despesas. Sobrou 400!!! Encontrei a mola, a mola que me impulsionou para fora do brejo... Voltar, tentar, recomeçar. Na capital dos meus sonhos.
Capital que conheci pela Avenida Amazonas, caminhões, ônibus, um mundo de carro em 1981, passando por aqui rumo a Cabo Frio.
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