segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Gastando o prestígio... comigo!



Escritor/Ator/Criador desta história: Raimundo Fábio dos Santos, 12 filhos, netos, bisnetos, pai adotivo, filho adotivo.
Prazer de contar esta história: Uma vaquinho no brejo...

Dias atrás conheci o Sr. Raimundo, nascido em 23.7.1928 (85 anos) ele tem tanta, mas tanta luz que mais parece um holofote!!!

 E assim começou nossa conversa...

Menina vou te contar uma coisa... Deus tem um propósito para minha vida e eu estou aqui esperando!!! Tenho pressa de morrer não. Aqui é bom!!! Adoro meus filhos, netos e bisnetos. Ainda tem muitos deles em redor de mim!!!

2 horas de papo, um resumo da sua vida, da sua história! Quantas vezes ele já visitou o brejo e sempre saiu de lá melhor...

Aos 9 anos, logo depois do pai morrer, o padastro o colocou para fora de casa. Segundo ele, ele foi o primeiro menino de rua de Minas... chegou a dormir na praça, debaixo da ponte, quase dentro do rio de esgoto! 
Uma senhora o encontrou na rua e resolveu ajudar! Deu comida, uma roupa limpa e uma esteira para ele dormir no canto da sala. Um dia, um irmão desta senhora chegou e o levou de presente...e lá foi ele, sem nem avisar a mãe, experimentar uma vida nova, trabalhar para essas pessoas e tentar ganhar a vida! Muito mais que empregado, ele virou filho. O pai adotivo, cuidou dele e da família dele pelo resto da vida.... e hoje eles são uma família só! 

O padastro reapareceu pedindo cuidado e uma casa... Seu Raimundo não quis ajudar. Disse que não é porque o padastro foi muito ruim com ele, mas porque o padastro é velho e velho tem muita mania chata. E ele me diz assim:
- Moça, fico muito preocupado. Quero ficar velho não!!! Já viu como velho tem umas manias chatas, como velho é chato? Nem sei o que vou fazer o dia que ficar velho... Esse é o Sr Raimundo, 85 anos de pura juventude.

Conversa vai, conversa vem, resolvo perguntar qual foi o dia mais difícil de sua vida. E sem pensar, nem por um segundo, já responde correndo:
-Moça, o dia que minha Maria morreu. Sabe moça a Maria foi tudo na minha vida. Único amor mesmo. Ela que me ajudou a lutar e a vencer. Ela que me ajudou a cuidar das nossas coisas, ninguém passava a perna na gente não.... E na hora que a Maria morreu, eu arrumei ela bem linda e disse para Deus.
- Deus, a Maria está embaladinha de presente e estou devolvendo-a para o Senhor. Se tiver uma aí igual, o Senhor pode colocar no meu caminho, se não tiver, me deixa aqui, bem quietinho!!!
- É moça e parece que não tinha não, ele não mandou ninguém! Algumas mulheres me quiseram, mas eu não quis gastar meu prestígio com qualquer uma não... E depois que a Maria morreu, eu achei que iria morrer também, virei um sisco. Não queria fazer nada e meu corpo foi só se acabando. Até que um dia uma comadre disse que se eu fosse para os bailes com ela, para dançar, eu iria me recuperar...
E assim fez Sr Raimundo... foi para os bailes da cidade, dançar... cheio de primeiras intenções.... e virou um cobiçado pé de valsa.... que atravessava salões recuperando a força para viver.

E para o Sr Raimundo, os melhores dias são sábados e domingos, que ele fica com os filhos e toma cerveja igual gente grande. E gosta também dos dias de trabalho, agora o horário dele é inglês... de segunda a sexta, algumas horas de ronda na Somatex, ali no centro de BH.

E o Sr Raimundo é assim:
Feliz de natureza
Jovem de espírito
Saudável de pensamentos
Forte de tanto amor que tem por Deus!

E com ele eu aprendi: viver sozinho é possível, desde que a gente esteja em harmonia conosco, com Deus, com a vida. Para levantar tem que querer e acima de tudo tem que se entregar ao poder do nosso criador: Deus!

Viva a Sr Raimundo que já adoeceu sério, já se curou para sempre... Que mesmo com artroses e artrites não liga para a dor... prefere a alegria de ir e vir para qualquer lugar, em qualquer dia da vida. 
Que amou tão bem e tão inteiro que nunca mais se sentiu só. 
Viva Sr Raimundo que aos 75 anos aprendeu a ler, escrever e que colocou em 10 páginas a sua grande e bela biografia.
E finalmente viva a Vaquinha que no brejo conheceu toda esta luz, esta luta e este tanto de amor em uma pessoa só!

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